O que são as siglas poveiras?
As siglas poveiras são um sistema de marcas gráficas usado pela comunidade piscatória da Póvoa de Varzim. Feitas de linhas simples e formas geométricas, eram gravadas ou pintadas em barcos, redes, utensílios de pesca e outros bens, servindo para identificar a quem pertenciam.
Mas o seu valor ia muito além da função prática. Cada sigla representava uma família e era transmitida de pais para filhos, funcionando como sinal de pertença, herança e reconhecimento dentro da comunidade. António dos Santos Graça, figura central na preservação da cultura poveira, descreveu-as como uma “escrita do Poveiro”.
Pela sua aparência gráfica, as siglas são frequentemente associadas às runas nórdicas — daí o nome popular “runas poveiras” —, embora essa relação não seja consensual entre os investigadores. Mais importante do que determinar uma origem única é compreender o uso que a comunidade lhes deu no quotidiano.
Uma pergunta sobre memória
Este projeto nasceu de uma inquietação: perceber se a ligação entre a Póvoa de Varzim e as siglas poveiras ainda se mantém, ou se caiu no esquecimento. A partir daí, tornou-se uma procura visual pela cidade — pelas ruas, pelos objetos e pelos elementos ligados ao mar.
O trabalho de campo revelou que os vestígios originais são hoje raros. O que permanece visível são sobretudo representações recentes, criadas como homenagem ou valorização da identidade poveira: placas de rua, barracas de praia, alguns barcos, padrões de calçada.
Entre a valorização e a perda, o projeto reflete sobre a tensão entre preservação e esquecimento — e sobre a forma como elementos culturais podem ser reduzidos a símbolos decorativos quando lhes falta explicação e contexto.
“Cada sigla é uma família gravada no tempo.”
Memória, território e património
O projeto Runas Poveiras reúne três componentes complementares: o ensaio fotográfico Marcas do Mar, o documentário O Código Poveiro e um ensaio escrito de enquadramento histórico e cultural.
Juntos, procuram dar visibilidade digital a este património, valorizar a identidade da Póvoa de Varzim e abrir uma reflexão: as siglas permanecem visíveis na cidade, mas nem sempre são verdadeiramente compreendidas.