Ensaio escrito

As siglas poveiras: memória, identidade e território

Rodrigo Braga · Projeto Integrado · 2025/2026

Uma escrita do Poveiro

As siglas poveiras fazem parte da cultura marítima da Póvoa de Varzim e da vida da comunidade piscatória. Durante gerações, foram usadas como sistema de identificação para assinalar redes, barcos, utensílios de trabalho e outros bens ligados ao mar (Santos Graça, 1932; Arnoni & Barreto, 2017).

Estas marcas tinham também um valor familiar e social. Cada sigla podia representar uma família e era transmitida de pais para filhos, funcionando como sinal de pertença, herança e reconhecimento dentro da comunidade (Santos Graça, 1932). António dos Santos Graça, figura central na preservação da cultura poveira e ele próprio proveniente da classe piscatória, descreveu-as como uma “escrita do Poveiro”: um sistema visual que identificava objetos, famílias e pertenças.

Algumas siglas inspiravam-se em elementos do quotidiano marítimo — o arpão, a lanchinha, o pé-de-galinha ou a grade —, refletindo a ligação profunda entre a comunidade e o universo do mar (Santos Graça, 1932).

Mais importante do que determinar uma origem única é compreender o uso que a comunidade poveira deu a estes sinais no quotidiano.

Runas ou siglas?

Pela sua aparência gráfica, feita de linhas simples e formas geométricas, as siglas poveiras são frequentemente associadas às runas nórdicas. Contudo, essa relação não é consensual entre os investigadores (Santos Graça, 1932; Frade, 2024). O nome popular “runas poveiras” persiste, mas o que distingue estas marcas não é a sua eventual origem — é a função social que cumpriram: identificar, herdar, pertencer.

Da função prática ao património

Com o tempo, as siglas perderam parte da sua função prática, mas ganharam importância como património cultural. Atualmente, continuam associadas à identidade local e à valorização das tradições poveiras (Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, s.d.). Ultrapassaram o contexto da pesca e integram hoje a imagem da cidade, estando presentes em espaços urbanos, objetos e referências culturais.

O trabalho de campo deste projeto revelou, porém, que os vestígios originais são raros. O que permanece visível são sobretudo representações recentes — placas de rua, barracas de praia, alguns barcos, padrões de calçada — criadas como homenagem ou valorização da identidade poveira.

Entre a valorização e a perda

Esta constatação abre uma reflexão central. Por um lado, é positivo que estas marcas ainda sejam usadas como sinal de identidade local. Por outro, a sua presença parece muitas vezes superficial, porque nem sempre é acompanhada de explicação, contexto ou ligação real à sua origem. As siglas permanecem visíveis, mas nem sempre são verdadeiramente compreendidas.

As siglas poveiras deveriam estar mais presentes e ser mais explicadas à população e aos visitantes. Só assim poderiam deixar de ser apenas marcas decorativas e voltar a ser reconhecidas como parte importante da história, da identidade marítima e da memória coletiva da Póvoa de Varzim.

Referências